O longa documental produzido pela Netflix possui algumas virtudes, mas também, reproduz alguns infortúnios, para dizer o mínimo. Trata-se de uma obra que, inevitavelmente, encontra suas limitações a partir da forma de sua produção e por seus interlocutores que ocupam a posição de narradores. Seria muito surpreendente que uma produção da Netflix, empresa que lucra com a extração de superávit comportamental, conseguisse chegar a pontos mais profundos da crítica às big-techs e ao big-data.
Como sou otimista, gostaria de começar elencando algumas virtudes que se destacam na produção. Em primeiro lugar, achei muito interessante a adoção de uma dupla narrativa, que tensiona o que seria o real (as entrevistas, as narrações, os trechos de palestras etc.) do ficcional. Essa medida foi muito perspicaz, uma vez que as realidades virtualizadas produzem a mesma indiscernibilidade observada no filme. Dessa forma, meu primeiro elogio diz respeito à forma do documentário, que representa justamente o movimento que acomete o real e o virtual, onde um informa o outro, produzindo uma realidade conectada.
A primeira crítica que faço diz respeito a esse movimento que mimetiza a realidade, pois acredito que pouco – ou nada – se explorou da intermediação do ficcional para com o real. A promissora proposta formal não consegue se consolidar na prática, pois o conteúdo dessas duas realidades que se interseccionam não foram capazes de demonstrar a influência do virtual – representado pelo ficcional – no real – representado pelo documental. Sempre que os mundos entram em choque no filme é porque o que está sendo dito em voice over no segmento documental está sendo apresentado em imagens no segmento ficcional. O filme, dessa forma, não foi capaz de realizar a potência da forma adotada, de maneira que acabou por apenas replicar a ultrapassada dinâmica de que apenas o real é capaz de informar e modificar o virtual.
Outra virtude que podemos atribuir ao longa foi sua capacidade de articular com conceitos complexos, sobretudo com o de capitalismo de vigilância. Acredito que, até certo ponto, o filme conseguiu demonstrar como o capitalismo de vigilância opera, demonstrando que trata-se de um projeto ubíquo baseado na extração de dados que são direcionados para a previsão e até mesmo para a modificação comportamental. Gostei, particularmente, das demonstrações visuais dos algoritmos, que mostram como estes funcionam a serviço de tal projeto. Vejo isto como um ponto forte do filme. Antes de passar para o próximo tópico, fiquei positivamente surpreso com a participação da Shoshana Zuboff, mas ao mesmo tempo, fiquei chateado pelo pouco tempo que a ela foi dado.
Outra coisa que, a princípio, me pareceu interessante, foi que o filme escolheu mostrar como pessoas de dentro da indústria de vigilância enxergavam o que produziram. Tal perspectiva foi capaz de oferecer uma certa precisão dos acontecimentos internos nas empresas do silício. Ao mesmo tempo, porém, a história contada resumiu-se aos feitos de alguns supostos grandes homens, sejam eles bons ou maus. Assim, o longa acaba por reproduzir a forma histórica dos vencedores, que sempre nos conduziu à noção de que a história é feita por sujeitos iluminados, que, pela força ou pela inovação, transformaram para sempre a humanidade. É um filme que pessoaliza os processos, simplificando e mesmo escondendo os alicerces que sustentaram a impregnação do tal dilema das redes. Está tudo dado no filme, não há um questionamento de como chegamos até aqui.
A escolha de se colocar os insiders da indústria como os narradores também acarreta em uma contradição insuperável: como podem eles nos alertar sobre o tal dilema das redes, se foram eles engrenagens importantes que as produziram? A solução encontrada foi simples, todos alegavam que “ninguém sabia que chegaríamos nesse ponto”, ou então, que “tudo o que foi feito no começo da indústria tinha as melhores intenções”. Será que foi assim? Não foi o Google, empresa em que Tristan Harris trabalhou por muito tempo, que arbitrariamente passou a extrair dados para o direcionamento de anúncios?! Não foi o Facebook de Tim Kendall, ex-diretor de monetização, que seguiu os passos da Google e trabalhou para que a rede social se tornasse cada vez mais viciante, de forma a atrair mais anunciantes?!
Não me entendam mal, eles podem realmente ter se arrependido de colaborarem na criação desse novo dispositivo de poder, mas cabe inocentar-se a partir da prerrogativa de que não sabiam quais seriam as consequências de suas ações? As medidas tomadas foram feitas visando exatamente o resultado que se concretizou, não foi uma obra do acaso.
Outra coisa que incomoda é que, aparentemente, o principal problema gerado pelas tecnologias de vigilância é o perigo de uma guerra civil americana. Os impactos em toda a extensão do globo não importam. A disseminação de fake-news coloca-se como um problema pois elas seriam responsáveis pela polarização do país, que poderia levar a uma guerra cívil. Ao mesmo tempo em que a ficção crítica um posicionamento político aparentemente neutro, dos radicais de centro, o documentário ressalta que não se deve tomar um lado.
Por fim, o diagnóstico do filme é de que as tecnologias desenvolvidas podem ser uma afronta à democracia a partir da modificação comportamental e da disseminação de desinformação. Questiona-se, contudo: tais tecnologias de vigilância não são justamente o produto da democracia liberal? Não seria a vigilância a forma pela qual o neoliberalismo optou pela segurança em detrimento da liberdade? Gostaria de finalizar essa resenha com as reflexões de Achille Mbembe, que ilustram com excelência o que aqui buscamos pontuar:
O sonho de uma segurança infalível, que requer não apenas vigilância sistemática e total, mas também expurgo, é sintomático das tensões estruturais que há décadas acompanham nossa transição para um novo sistema técnico mais automatizado, mais reticular e ao mesmo tempo mais abstrato, formado por múltiplas telas – digital, algorítmica, numinosa. […] Uma das maiores contradições da ordem liberal sempre foi a tensão entre liberdade e segurança. Essa questão parece ter sido decidida. A segurança agora supera a liberdade. […] Uma sociedade de segurança é uma sociedade dominada pela necessidade irreprimível de adesão a um conjunto de certezas. […] É por isso que, em uma sociedade de segurança, a prioridade é identificar a todo custo o que está por trás de cada aparição. […] O projeto da sociedade de segurança não é afirmar a liberdade, mas controlar e governar os modos de aparição. O mito contemporâneo alega que a tecnologia representa a melhor ferramenta para governar as aparições (Mbembe, 2023, p. 80 – 84).




