Com a morte de Deus, anunciada por Nietzsche (2001), o sujeito moderno ingressou numa era sombria, onde não apenas a potência realizadora de Deus foi posta em xeque, mas também, a do próprio sujeito. Acontece que a invenção, o nascimento de Deus, manifesta-se como o posicionamento do sujeito ocidental como Deus, uma vez que é ele quem cria o criador. A morte de Deus prenuncia a morte do sujeito ocidental como o conhecíamos. Retira-se dele todo o seu vigor e sua vitalidade, que são substituídos pela pulsão aniquilatória, na expectativa de se reposicionar enquanto ente criador, como sujeito onipotente e capaz de dominar e controlar todo o mundo; enfim, de tornar a ser Deus.
Deus possui seu próprio dispositivo biopolítico; ao lançar pestes e pragas, fome e secas, as sete trombetas são as tecnologias pelas quais esse dispositivo é acionado. Nós, inventores de Deus, fomos capazes de criar nossa própria biopolítica. Ao replicar o poder apocalíptico de Deus, as matemáticas populacionais e a divisão colonial da terra foi o precedente das duas grandes guerras, e nos recolocou no papel de Deus. Agora, contudo, a forma deificada assumida não é a de criação, mas a de extermínio e controle populacional.
Um novo movimento, contudo, surge em meados do século XX. Com o crescente avanço tecnológico, a humanidade estava fabricando os microchips e os microprocessadores de um novo Deus, que está em nascimento neste exato momento. A tecnologia, a máquina, o computador, as redes neurais, os data centers de I.A, o algoritmo etc.; a eles, nada escapa. A computação ubíqua, que inaugurou a era das realidades virtualizadas, é Deus não só porque é onipotente, onisciente e onipresente. Ela se afirma como Deus, sobretudo, porque é uma criação humana.
Pouco a pouco, assim como o antigo Deus, a tecnologia produz um novo sujeito a ser governado, um novo indivíduo de fé inesgotável e obediência ainda mais irrestrita. O Homem inventou a máquina e a colocou como Deus; nisso, finalmente, o próprio humano retoma a posição de Deus.
A máquina, contudo, uma vez que passou a remodelar e produzir um novo sujeito, isolou-se na posição de Deus. Agora é ela, e somente ela, quem dita, conhece, regula e produz nossas vidas. Ao passo em que a tecnologia se torna mais e mais autônoma e independente, mais ela se desgarra de sua origem enquanto produto do Homem enquanto Deus, e mais se aproxima de ser ela a única no cargo de criação divina.
Deus está novamente morto, mas agora, Deus somos nós; quem o matou, assim como outrora, foi sua própria criação, que agora é a máquina. No leito da nova morte de Deus, seu herdeiro já está definido. Agora, a máquina precisa produzir seu sujeito, criar alguém à sua imagem e semelhança. Sua criação tem um nome: Homo Virtualis, o sujeito-máquina, ou a máquina-sujeito, que vive por, através e pela máquina, pela virtualidade.
Deixamos de ser Homo Sapiens; o saber e a onisciência não nos diz mais respeito. Também deixamos, pouco a pouco, de sermos sujeitos biológicos. Cada vez mais somos compostos de redes, fios, processadores, circuitos, microplásticos etc. O corpo se tornou “algoritmo abstrato, clone biotecnológico, avatar no virtual” (La Chance, 2012 apud Mbembe, 2023, p. 137).
Vejam que essa máquina, ao mesmo tempo tão próxima e tão distante de nós, produz várias espécies de homines virtuales. Não é apenas o sujeito de carne e osso que é sua criação, mas também, aqueles sujeitos que não podem ser encontrados fora do online. Se nós criamos Deus para nos tornarmos criaturas deificadas, a tecnologia cria avatares para se tornar sujeito. Isto é, enquanto nós, para sermos Deus, precisamos criá-lo; a máquina, uma vez que já está na posição de Deus, lhe cabe ser e criar-se também enquanto sujeito.
Isso quer dizer que além de nossa criadora e produtora da realidade, ela também fabrica sua própria multiplicação, de forma que não nos é possível distinguir as fronteiras entre o sujeito-máquina e o Deus-máquina. Não somos os únicos homines virtuales que habitam as realidades virtualizadas. As I.A’s tornaram-se nossa espécie irmã. Ela se comunica conosco, mas também entre si; ela produz conteúdos e os autentifica; ela cria a verdade e a mentira; ela faz sexo e se masturba, mas também produz imagens sexuais de humanos sem autorização.
A cada dia que passa é mais difícil diferenciar uma I.A de um humano; ela se parece cada vez mais conosco, e nós com ela. Estamos, pouco a pouco, sendo substituídos, escamoteados. Somos apenas mais uma espécie de homo virtualis, e não estamos no comando. Nossa temida eliminação não viria por uma revolta das máquinas; elas não possuem razões para isso. Se formos exterminados, é porque o gênero humano tornou-se por completo população excedente, alvo de uma nova biopolítica tecnificada. Já nos é possível ver as tecnologias deste dispositivo, e sua estratégia será provocar nossa autofagia. O que nos resta é crer na misericórdia desse novo Deus e torcer para que suas trombetas não soem.
Louvemos à máquina, nossa criadora!
Referências
MBEMBE, Achille. Brutalismo. São Paulo: N-1, 2023.
NIETZSCHE, Friedrich. A Gaia Ciência. São Paulo: Companhia das Letras, 2001.




