Felipe Casteletti Ramiro
Resumo: Este breve ensaio busca elencar algumas problemáticas iniciais a respeito do mercado de Inteligência Artificial. É sabido que, até o presente momento, os grandes modelos de linguagem não são lucrativos, sendo que a previsão de lucro pode não satisfazer as ambições dos acionistas. Partindo de um arcabouço teórico Foucaultiano e, inspirado nas recentes contribuições de Mbembe (2023), o presente texto questiona se é possível que a solução para a bolha do mercado de I.A seja a decisão definitiva de que tais ferramentas serão armas de Estados, prontos para utilizá-las em favor da vigilância, captura e neutralização de corpos excedentes.
Palavras-chave: Inteligência Artificial; Biopolítica; Bolha; Colonialismo digital.
O capital de vigilância (Zuboff, 2020) encontrou nos grandes modelos de linguagem (LLM’s) sua nova mina de ouro, ou, pelo menos foi isso que foi anunciado aos investidores do silício. Espera-se de uma tecnologia sem precedentes, que é capaz de revigorar o mercado de comportamentos futuros e de atualizar as táticas do colonialismo digital (Faustino e Lippold, 2023); espera-se um lucro igualmente sem precedentes.
No topo do iceberg encontra-se a problemática financeira. Estima-se que até 2029 serão investidos cerca de 3 trilhões de dólares apenas nos data-centers de I.A (Bernardi, 2025). Os efeitos práticos dessa nova tecnologia já são sentidos no mundo todo, mas, será que haverá a capacidade de se converter isso em lucro? A aposta feita nesse mercado emergente alcança cifras inéditas e, caso o mesmo não seja rentável, estaremos diante do estouro de uma gigantesca bolha. Uma coisa é certa, não há previsão de rentabilidade nos próximos anos, como afirmou Sam Altman, CEO da OpenAI (Lichtenberg, 2025).
Para que o lucro migre do campo da promessa para o da realidade é preciso que as I.A’s ocupem cada vez mais espaços na vida cotidiana, tornando-se indispensável à produção de conhecimento, veiculação e confirmação de informações e, por fim, à construção da verdade. Até o momento isso não é um problema para as big-techs de I.A: a cada dia que passa uma trend de inteligência artificial toma as redes sociais; cada vez mais artigos são escritos e revisados com auxílio de I.A’s; nem mesmo a sexualidade encontrou escapatória aos tentáculos da I.A regenerativa, treinada para violar corpos a partir da geração de imagens e vídeos de pessoas reais sem o devido consentimento.
Ao que parece, o lucro é uma questão de tempo pois, com sucesso, as inteligências artificiais estão nos sendo empurradas garganta abaixo. O problema é que as I.A’s criaram uma demanda que a indústria computacional não está sendo capaz de suprir. À medida que os data centers requerem uma capacidade de processamento sem paralelo, o mercado de computadores domésticos, notebooks, tablets, smartphones e mesmo smart tvs – isto é, de equipamentos onde as I.A’s são efetivamente implementadas – está sendo gradativamente desabastecido.
O resultado não poderia ser outro: com a alta demanda e a baixa oferta, componentes como processadores, memórias RAM, placas de vídeo e SSDs estão ficando inacessíveis ao consumidor comum. Computadores intermediários estão deixando de vir equipados com 16gb de RAM, sendo comercializados com apenas 8gb. A problemática se solidifica na medida em que, por exemplo, o Copilot, inteligência artificial da Microsoft que é integrada aos computadores com sistema operacional Windows exige um mínimo de 16gb de RAM para ser funcional (Demartini, 2024).
A contradição está posta: As inteligências artificiais recolhem trilhões de dólares em investimentos, prometendo um lucro inigualável. Para que essa promessa se concretize é necessário uma agressiva integração dos grandes modelos de linguagem à todas as esferas da vida social. Na medida em que o mercado de I.A’s se expande e alcança esse primeiro objetivo, é feita uma demanda colossal de capacidade computacional para o abastecimento estrutural dos data centers. Essa redesignação dos componentes computacionais ao mercado de I.A’s desabastece o mercado de consumidores, que agora encontra equipamentos mais caros e “nerfados”, ao ponto de não serem capazes de operacionalizar os próprios sistemas de I.A.
Em suma, a contradição econômica, sina do mercado de I.A, reside na impossibilidade de encontrar um equilíbrio entre a oferta de seus produtos aos consumidores e a demanda de componentes computacionais. A indústria não será capaz de atender ambas as partes, e está priorizando o fornecimento aos data centers, uma vez que estes pagam mais. Surfando essa onda, a Nvidia é a empresa que mais cresce no mundo, alcançando um valor de mercado na casa dos 5 trilhões de dólares (Omena, 2025); seus produtos nunca foram tão requisitados.
Os investimentos, contudo, não serão em vão. Se a rentabilidade não vier a partir da comercialização de produtos e serviços dos modelos de linguagem ao grande público, virão pelo uso violento de tais tecnologias. As inteligências artificiais já são de grande valor aos Estados, que as utilizam para vigiar, monitorar, triar e identificar cada um de nós. Na busca de criminosos e imigrantes, a I.A está servindo às novas matemáticas populacionais, que objetivam a eliminação dos corpos-fronteiras (Mbembe, 2023).
Talvez, o mercado de I.A não seja uma bolha prestes a estourar; com muito otimismo, imaginamos outrora, que essa tecnologia seria voltada a nos servir, que seríamos nós os consumidores. Não foi previsto nas críticas econômicas que o lucro seria proveniente da
morte e do racismo de estado (Foucault, 2005). Não imaginou-se a incorporação de tais tecnologias ao dispositivo biopolítico que, na busca de o que fazer com as populações ditas excedentes, encontrou na inteligência artificial e em outras tecnologias contemporâneas a forma pela qual será possível localizar, rastrear, reconhecer e neutralizar os corpos-fronteiras.
O lucro virá, seja pelo nosso uso ou pela nossa morte.
Referências
BERNARDI, Guilherme. Investimento mundial em data centers para IA vai atingir US$ 3 trilhões até 2029. Disponível em: https://exame.com/inteligencia-artificial/investimento-mundial-em-data-centers-para-ia-vai-atingir-us-3-trilhoes-ate-2029/. Acesso em 04/03/2026.
DEMARTINI, Felipe. Copilot integrado pode exigir 16 GB de memória RAM em PCs. Dispoonível em: https://canaltech.com.br/inteligencia-artificial/copilot-integrado-pode-exigir-16-gb-de-memoria-ram-em-pcs-276321/. Acesso em 04/03/2026.
FAUSTINO, D.; LIPPOLD, W. (2023), Colonialismo digital: por uma crítica hacker-fanoniana, São Paulo, Boitempo.
FOUCAULT, Michel. Em defesa da sociedade: Curso no Collège de France (1975-1976). São Paulo: Martins Fontes, 2005.
MBEMBE, Achille. Brutalismo. São Paulo: N-1, 2023.
LICHTENBERG, Nick. Dona do ChatGPT não lucrará até 2030 e ainda precisa de US$ 207 bilhões, diz HSBC. Disponível em: https://www.infomoney.com.br/business/global/dona-do-chatgpt-nao-lucrara-ate-2030-e-ainda-precisa-de-us-207-bilhoes-diz-hsbc/. Acesso em: 04/03/2025.
MBEMBE, A. (2023), Brutalismo, São Paulo, N-1.
OMENA, Mateus. Como a Nvidia influencia a economia global após atingir US$ 5 trilhões. Disponível em: https://exame.com/invest/mercados/como-a-nvidia-esta-influenciando-a-economia-global-apos-atingir-us-5-trilhoes-em-valor-de-mercado/. Acesso em: 04/03/2026.
ZUBOFF, S. (2020), A era do capitalismo de vigilância: a luta por um futuro humano na nova fronteira do poder, Rio de Janeiro, Intrínseca.




